Fez parte da agenda do Crônicas Urbanas, no escopo do Itinerários da Experiência Negra, o diálogo constante com jovens ativistas das periferias da zona oeste de São Paulo. Pontes entre centro e periferia, presente e passado foram fundamentais durante todo percurso do projeto.
Para fortalecer a rede de organismos sociais e culturais negros dos bairros do distrito Raposo Tavares, o Crônicas Urbanas organizou uma prospecção de equipamentos públicos, coletivos e organizações sociais da região Centro-Oeste, disponibilizando neste blog um mapa com os registros encontrados.

No total foram 84 mapeados, seguindo como critério apenas os que trabalham com as temáticas: étnico racial, direito à cidade, memória e composição de redes locais.
Uma segunda etapa da pesquisa contou com questionário aprofundado com coletivos da região, a partir da metodologia ‘bola de neve”, ou seja, entrevistando pessoas a partir da indicação dos próprios entrevistados. A partir desta rede identificamos 10 jovens negros, moradores dos bairros do distrito Raposo Tavares, entre 18 e 29 anos, que estavam envolvidos com projetos sociais e culturais. O próximo passo foi convidá-los a fazerem parte do projeto como forma de transbordar nossa ação para mais pessoas/movimentos e aprender com a história de vida e experiência de cada um deles.

O convite do Crônicas Urbanas aos jovens foi: qual mensagem vocês deixariam aos pesquisadores do próximo século?

Veja abaixo as mensagens formuladas por eles:

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Georgia (21), Isabela (18), Deivi (19) e Vinícius (20)  são do Quilombo XXIII, coletivo que trabalha a temática étnico racial no bairro do distrito Raposo Tavares, o João XXIII. Por meio da produção audio-visual, marca registrada do Quilombo, o coletivo coloca em movimento a sua produção e expressão. Com Georgia e Isa nas câmeras, atuação de Deivi, a produção de áudio de Vinícius e o talento de todos compondo o roteiro e cuidando de cada detalhe na finalização o resultado não poderia ser outro: uma produção intensa, capaz de convocar a reflexão.  Assistam abaixo no canal do Quilombo.

 

Denise Rodrigues, 27 anos, blogueira do Entrelinhas Fantásticas, página de literatura com mais de 10 mil seguidores. Turismóloga, gestora de projetos culturais pela USP, Denise há muito tempo pesquisa sobre a São Paulo negra, tendo realizado recentemente uma pesquisa sobre o Museu Afro. Leia, na íntegra, o texto produzido por ela

“Difícil expressar em palavras todo um sentimento que transborda, difícil expressar como é viver e fazer parte de um período de transição. Transição, sim! Pois estamos vivenciando as mudanças de toda uma era. Tal qual a transição capilar que – com dificuldade, persistência e resistência, traz de volta os nossos cachos-crespos.
Parece que ficamos algumas décadas “alisados”, seguindo um padrão imposto por outros,
de não-aceitação e apagamento da nossa origem. Após um longo período “lisos”,
“escorregadios”, sem volume (ou voz), escondendo e até esquecendo nossa essência, a
mudança chegou! A transição nos fez despertar para novas possibilidades, crescer, ganhar volume e brilho! E de certa forma… Amadurecer! Entender nossa essência, nossas diferenças, respeitá-las e se auto-descobrir.
Ser mulher, negra, paulistana e periférica é aprender cada vez mais. Aprender as mazelas do meu povo e de tantos que vieram antes de mim, é se hidratar de relatos e experiências que enriquecem e fortalecem a minha própria fibra. É entender que toda essa transição está ocorrendo porque nos permitimos desbravar e tirar todo o véu que encobre toda a história de um povo.
Percorrer esses itinerários revividos e pulsando em 2017 é, acima de tudo, um reencontro com a São Paulo do século XX e os resquícios de uma São Paulo Negra que sofreu – e ainda sofre – um apagamento histórico. E esse reencontro engrandece, choca, traz alegrias,tristezas e luta… Alegrias vindas do pertencimento e da representatividade negra na Terra da Garoa e tristezas por sabermos que as raízes que tentaram ocultar essa memória ainda permeiam às ruas e é aí que nós entramos, persistindo, aquele fio de esperança e luta.
E quando se nota, já virou um black power.
Poderíamos estar falando sobre cabelos… mas não, falamos sobre resistência! ♥”

Taís Aparecida, 24 anos, educadora social da OSC Rede Criança de Combate a Violência. Foi  Jovem Monitora Cultural, da prefeitura, e cursa serviço social na FMU. Dá só uma olhada na produção da Taís:

fansini

Thamirez de Melo, 20 anos, está fazendo curso de cinema no CEU Butantã – “É Nois na Fita”. Conheça a mensagem da Taís na força de seus versos:

PRESENÇA NEGRA

Um grande desafio diário é saber onde piso e qual o proximo passo,
observando o grande campo minado que é estar nessa margem,
especificamente no extremo da cidade, agora numa nova casa, do outro lado,
da mesma margem, o João XXIII.

Extremo Zona Oeste de São Paulo. Sem vínculos, comecei a mastigar a raiva da falta de recursos, esquecimento e desserviço na quebrada, as questões são muitas, tão maiores que minha perna e tão mais complexos que entendo a necessidade da mobilização da
comunidade em fazer acontecer e mover sangue e suor para se dar condições existenciais. É um peso que cada um carrega; levanta diariamente
consigo, aqui o sol é bonito mas o corre do dia começa bem antes das
primeiras flechas de luz.

O enorme esforço pela resistência, destaco como forte aliada nessa
caminhada, nos torna capazes de seguir em frente para manifestar nosso
descontentamento e trazer a tona o esquecimento dessa região, fazendo nós
mesmos a micropolítica da mudança diária, necessária. Quando a
mobilização é feita, ainda passamos por demorados processos burocráticos,
estamos aqui para cobrar o que de direito é nosso, fazemos parte e
circulamos muito o financeiro dessa cidade que querem nos tirar, nos excluir.
Existimos. Nos conhecendo ou não, existimos e resistimos todos os dias.
As marcas que carrego nunca foram manchas sujas, tenho consciência de
onde vim, periférica sim! Sou eu a corda- bamba da minha própria liberdade.
Não tenho medo e é claro que vou quebrar a porta se não abrir, minha
história não vai ser apagada.
Quebrei a quarta parede, quero olhar vocês de frente e dizer que não preciso
da tua ajuda, é pra ver nua e crua minhas marcas, minha luta. O que digo vai
atravessar o tempo como bifurcar o espaço. Vocês devem saber que aqui, eu
corro contra o tempo pra sobreviver, mas quero mais que isso, quero viver.
Quebro a quarta parede pra verem como é minha realidade e onde busco a
força pra continuar, antecedo muitas mulheres que seguram na minha mão e
conto com outras tantas que me acompanham no caminho, árduo e vai ser de
vitórias nossas memórias.

Iêda Reis, 24 anos, formada em letras pela  UNEB, universidade da Bahia, participa do curso de Qualificação Profissional da OSC Liga Solidária, Educandário Don Duarte (equipamento fundado no bairro Jardim Educandário por volta da década de 1930).

Luiz Henrique da Silva, 22 anos, é cantor e faz parte do Coral da USP, além de participar do coletivo de teatro experimental Ponto de Partida. Luiz cantou o seu recado à sociedade no palco do CEU Uirapuru no dia 30 de setembro de 2017. Veja só as fotos:

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Iêda e Luiz

 

 

 

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