Em 23 de setembro, na Galeria Olido, lançamos o Guia Itinerários da Experiência Negra. Este trabalho é fruto de um ano de pesquisa e entrevistas sobre lugares de memória negra na São Paulo do início da República.

O documento reúne 16 pontos da capital, propondo dois roteiros que nomeamos de “Centro” e “Bixiga”. Além da pesquisa histórica e registro de cada ponto, o livro também organiza relatos de entrevistados que falam sobre a experiência de viver na capital paulista. Entre os entrevistados, Beth Beli, fundadora do bloco Ilú Obá de Min e a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, autora do livro Imprensa Negra no Brasil do Século XIX,

Em breve o Guia Itinerários da Experiência Negra – Um passeio histórico por São Paulo será publicado na internet. Enquanto isso, separamos alguns trechos para você conferir:

Ponto n°59 – Largo do Palácio – Atual Pátio do Colégio.

O Clarim da Alvorada José Correia Leite recorda que em São Paulo nunca faltou um ponto de encontro da população negra. O principal deles ficava no Largo do Palácio (atual Pátio do Colégio – Centro, São Paulo). Lá, muitos negros iam passear aos domingos, “para fazer hora e depois ir para os bailes”.

“– Era bonito ver negras de saia-balão, redondas, engomadas. Cada uma queria ser mais vistosa que as outras. Muitas eram cozinheiras de forno e fogão em casas de famílias importantes. Os homens também procuravam se trajar bem, e alguns tinham uma boa situação social. Mas era questão de ser chofer, cozinheiro ou funcionário público, situação que dificilmente passava de contínuo”*

* (CUTI (org.) José Correia Leite… E disse o velho militante: depoimentos e artigos. 19ª ed. São Paulo: Noovha América, 2007, p. 44 -45.)

Introdução
(…) O avanço econômico bancou um projeto de metrópole que importava da Europa a arquitetura e, com ela, o mais alto grau de civilização, segundo as ideias da época. Tal perspectiva fez com que sucessivos governos sonhassem com uma cidade aos moldes de um padrão estético majoritariamente branco e rico.
Para conseguir seu intento, a máquina pública demoliu prédios, casas e ruas. Desapropriou lugares de encontro da comunidade negra, espaços de beber e de dançar, de rezar ou trabalhar. Os campos físico e simbólico, sagrado ou profano das classes populares, sobretudo a negra, nada significavam na tomada de decisão das tantas gestões municipais que priorizaram a especulação imobiliária e a construção de um centro financeiro. O plano de modernização seletiva, no entanto, teve sua ruína na concepção de cidade que ele sempre desconsiderou: a da vivência de seus moradores. Mesmo com toda a força empregada para expulsar negras e negros da capital, aqui eles permaneceram, casaram, trabalharam, lutaram por melhores condições de vida e trilharam intensas trajetórias que até hoje estão grafadas nas entranhas de uma São Paulo pouco revelada (…)

Cartas sobre a experiência negra contemporânea

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“(…)Agora, andando pela rua Major Diogo, ou mesmo pela Nove de Julho e pela Brigadeiro Luíz Antônio, percebo: não sou nova por aqui. Quantas vezes essas ruas todas cruzaram meu caminho? A bordo de ônibus lotados, ou de tênis desgastados, passei por essas avenidas de passos e dentes apertados, torcendo para não perder a hora, o trabalho ou a vaga na faculdade. Esse pedaço de cidade, como qualquer outro, era obstáculo a ser vencido.
Maio, reza-se a missa da mãe negra na igreja de Nossa Senhora Achiropita, soube recentemente. Neste mês, os encorpados molhos vermelho-escarlate ganham um novo sabor. Maio, da luta e libertação, é também o do nascimento da minha vó, mãe preta de filhos e netos, irmãs e cunhadas. Mãe preta de vizinhos e comadres, e a gente toda que ela juntou para brigar por direitos nas paróquias dos anos 70, na barraca da feira em Itaquera, e onde quer que fosse preciso para existir na árida São Paulo que suas mãos ajudaram a construir.
Quase não tinha notado os sambas da 13 de maio, tão frequentados por mim anos depois, também compondo a paisagem do Bexiga. Às sextas-feiras, em frente à igreja, fui encontrando parte da minha história na batucada do Madeira de Lei, ou mesmo no samba da Va-Vai. Eram versos de uma poesia para mim incompleta, versos de um bairro do qual conhecia só uma face. Nas noites de samba assisto com a boca seca e o estômago faminto o Bexiga revelado no escuro, tingindo o papel branco de memórias nubladas, de histórias extraviadas e nunca servidas em banquetes festivos das tradicionais festas locais(…)”

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